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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sociedade pela liturgia reformada

A graça de eu estar em pé diante de uma igreja presbiteriana, vestindo toga, recitando o Credo Apostólico e dirigindo confissões congregacionais ainda não se perdeu pra mim. Se ao menos o pessoal da Igreja Batista de Hall Street pudesse me ver agora... eles não estariam rindo. (É Thomas Cranmer ali no canto com o sorrisinho irônico?)







Eu cresci com medo de qualquer igreja que não parecesse uma cruzada de avivamento. A primeira vez que eu fui a um culto católico romano, eu estava tão assustado e confuso que eu fugi. Quando todo mundo foi lá pra frente receber a comunhão, eu achei que era a hora do apelo e imaginei que era uma boa hora pra vazar. O stress de tentar entender os genuflexórios foi demais pra mim.






Mesmo igrejas metodistas me assustavam. Eu simplesmente não entendia o que estava acontecendo, mesmo nas liturgias mais simples, e acreditava que se envolver com elas era ruim para um cristão verdadeiro. “Bom mesmo” era o avivalismo evangelístico, e todos os esforços empregados em trazer gente pro altar, ou melhor ainda, pra cima dele, “dando testemunho” de como eles foram salvos. (Meu amigo anglicano ficava igualmente confuso com nossos cultos batistas, mas ele se virava bem melhor do que eu, que nunca tive coragem nem de visitar a igreja dele.)






Hoje, o avivalismo é que mete medo em mim, e a reconfortante previsibilidade da liturgia comum é o meu lar e da minha família. Quando ministros começam a improvisar e falar sobre “o que Deus pôs nos corações deles”, eu tenho vontade de fugir pela porta dos fundos. O Livro de Oração Comum de 1928, por mim, poderia se tornar a lei da terra.






Meus amigos costumam falar de igrejas litúrgicas como se fossem antros de satanismo escancarado. Nelas, cristãos falsos, mortos, presos pelas cadeias papistas da tradição, que apagam o Espírito a cada oportunidade, sentam-se congelados, adorando a Deus numa caixinha e considerando-se a si mesmos os únicos cristãos verdadeiros. Enquanto isso, na Assembléia do Avivamento Livre dos Pentecostais dos Últimos Dias do outro lado da rua, cristãos verdadeiros, livres no Espírito, ficam doidões e curtem o maior barato em Jesus, são salvos todo domingo e vêem Deus operando milagres todo culto. Cantalabashurias!






Eu já desisti de tentar me explicar pra essa gente. Como já fui um deles, um carismático ingênuo na minha época de escola, eu sei o quanto esse pessoal é convicto de que igrejas litúrgicas são erradas, e que tudo o que é verdadeiro precisa ser espontâneo. Mas acho que preciso registrar o que encontrei na tradição litúrgica, e por quê eu tirei os meus filhos do avivalismo e os ajudei a achar seu caminho em uma igreja que propositadamente evita as mesmas coisas a que eu mais dava valor quando era batista.






A causa de tudo






Um garoto não pode ser criterioso demais com o que lê. Eu não tenho idéia de onde tirei o (subvalorizado) livro de Robert Webber, The magic tapestry (“A tapeçaria mágica”, sem edição em Língua Portuguesa, N. do T.), mas de alguma forma ele se achou nas minhas mãos e eu o li. Várias vezes. E para o meu constante proveito. Foi esse livrinho que me custou uma carreira promissora como avivalista na Igreja Batista do Sul.






Robert Webber é um professor de História da Igreja e Teologia que dedicou sua carreira a encorajar os evangélicos a aprofundar sua apreciação das tradições mais amplas do culto cristão. Magic tapestry foi minha introdução a uma tradição cristã da qual eu jamais tinha ouvido antes. (O tamanho da minha ignorância desafiava qualquer medida. Eu não tinha idéias verdadeiras sobre qualquer forma de cristianismo além do meu próprio fundamentalismo e do que me falavam sobre os católicos. E a maior parte do que eu acreditava sobre a minha própria gente estava errada também.)






Lá estava o Ano Cristão, os grandes temas da redenção esboçados na liturgia. Aqui estava a Igreja militante e triunfante, e uma profundidade de apreciação da Bíblia como fonte do culto que eu não encontrava no meu cantinho de religião. Aqui estavam os Salmos, as Coletas, os Responsos e outras vozes de um culto simples, bíblico. Ali estavam os laços que uniram cristãos através da História e das denominações; a Igreja una, santa, católica e apostólica. Ali estavam as confissões, os credos, os santos, os mártires e, sim, a liturgia da cristandade. E aparentemente ela era toda minha, embora eu estivesse em uma igreja que acreditava que a maior parte dessa gente estava torrando no inferno.






Eu estava cativado. Webber previa que a tradição cristã mais ampla tem um apelo particular para a geração dos boomers que se desgostou do denominacionalismo. Eu cresci no coração do denominacionalismo, mas muitas das minhas amizades cristãs mais significativas eram com não-batistas do Sul. Eu sabia que esses irmãos eram cristãos, e sentia que eles eram parte de uma família cristã maior, à qual eu pertencia, mas eu não sabia disso. Webber se concentrou no tema do Christus Victor, o Cristo Vitorioso, e me mostrou como o culto da igreja rememora esse tema a cada vez que se reúne para cultuar. Ali estava a Ceia do Senhor como uma grande mesa de comunhão e uma prévia do banquete escatológico do fim dos tempos. Ali estava o Batismo para dentro do corpo de Cristo, não apenas para dentro da “nossa igreja”. Ali estava a aceitação de outros cristãos na grande tradição, em vez de uma exclusão de todos os outros por questões que eram evidentemente triviais ou mesmo falsas.






O efeito do livro de Webber em mim foi profundo – e ele continua até este dia, quando eu cada vez mais valorizo a grande tradição da fé que vem da Antiga Aliança para a Nova e pela Igreja de todos os tempos e lugares.






Mudando de pato pra ganso






Em 1982, nós nos mudamos para Louisville para que eu pudesse freqüentar o seminário. Eu já tinha trabalhado em tempo integral como Pastor Auxiliar para a Mocidade por três anos antes de voltar a estudar, e não estava interessado de verdade em novas vagas com os jovens. Eu queria pastorear, e me recusei a me inscrever para várias vagas na área de Louisville.






Mas um dia eu fui contatado pela Igreja Batista Highland, uma igreja perto do seminário no bairro do Triângulo Cherokee de Louisville. Highland não era o tipo de Igreja Batista do Sul com que você está acostumado. Pra começo de conversa, ela era extremamente high-church pros padrões batistas do Sul no Kentucky, pra dizer o mínimo. A maioria dos pastores da convenção, ao visitá-la, sentiriam que tinham entrado em uma igreja presbiteriana razoavelmente alta. O culto era litúrgico. A Bíblia era lida em três lições. Orações comunitárias, responsos e confissões eram comuns. A música, embora ocasionalmente ciente e apreciadora de suas raízes avivalistas, era bem polida, séria e clássica. O pastor, Paul Duke, era um jovem pregador cujos sermões estavam enchendo a igreja de profissionais e da comunidade acadêmica do seminário. Ele pregava em cima do lecionário e se inclinava mais para Fosdick e Craddock do que para Criswell ou Vines. O belo santuário de pedra era cheio das cores litúrgicas e do Ano Cristão.






Eu tentei não bancar o Zé Buscapé, mas a verdade é que eu estava bestificado. Isso era chique demais pra um garoto do sertão avivalista do oeste do Kentucky. Não, eles não vestiam togas ou usavam incenso, e sim, eles tinham apelos, mas essa era uma igreja intencionalmente plugada na tradição de que Webber estava falando. Nos meus dois anos como ministro dos jovens em Highland, eu fiz um trabalho razoável com os estudantes. Mas aprendi o bastante sobre a Igreja para me mudar pelo resto da vida. Nunca mais me senti confortável no culto típico de uma igreja batista do Sul.






O seminário reforçou muito do que eu estava aprendendo em Highland. Eu finalmente passei a entender a tradição da igreja, e enxergar o valor de deixar que essa grande tradição substitua o denominacionalimo. Ao mesmo tempo, eu vi algumas das possibilidades de integrar essa tradição com a missão da igreja; as muitas maneiras pelas quais a Bíblia e a tradição, em vez da modernidade e do pragmatismo, podiam moldar o evangelismo e o ministério.






Em História da Igreja, eu estudei essa tradição, e em Teologia eu vi o seu desenvolvimento e influência. Pela primeira vez, eu vi como minhas raízes batistas fundamentalistas se relacionavam com aquela tradição mais ampla. Eu compreendi que mesmo nas trilhas de serragem do avivalismo, havia ecos de um culto litúrgico e do Livro de Oração Comum. Eu notei que o Hinário Batista de 1956, examinado mais de perto, estava cheio de textos que não foram escritos mês passado em Nashville. Alguns eram traduções de textos latinos antiquíssimos. Letras católicas? No meu hinário!? E essa foi só uma das muitas formas em que meus olhos foram abertos à influência englobadora da tradição cristã.






O que eu amo






O que eu amo no culto litúrgico?






Eu amo o Ano Cristão. Quando eu era empregado nas igrejas, nós éramos mandados organizar o ano da igreja em torno das várias ofertas e ênfases denominacionais da Convenção Batista do Sul. Exceto pelo Natal ou Páscoa, não havia vestígio do Ano Cristão. Era o programa da igreja que unia o nosso culto e a nossa pregação. Eu me lembro de como isso nunca me pareceu estranho até que eu tive filhos. Então ficou óbvio que o Ano Cristão era um meio básico de ensinar a nossas crianças – e a toda a congregação – a história do Evangelho.






Hoje, o Ano Cristão é uma das minhas paixões. Advento, Quaresma, Semana Santa, Epifania, Domingo da Trindade, Cristo Rei, Ascensão, Anunciação, Batismo do Senhor – todos esses dias nos ensinam a história de Jesus e nos pregam o Evangelho. Por que quereríamos negligenciar essa grande herança? Por que não podem todos os cristãos ver o valor na celebração visual e artística do Evangelho que é tornada possível por meio do uso do Ano Cristão?






Um dos erros mais tristes do fundamentalismo é presumir que se uma coisa é “católica”, ela é católica romana, e portanto, é veneno. O Ano Cristão é propriedade de todos os cristãos, e eu só posso me alegrar que mais e mais evangélicos de todas as linhagens estejam redescobrindo o Advento e a Quaresma. Tenho esperança de que em breve vejamos o Ano Cristão retomado em todas as igrejas, e uma maior unidade de culto criada como resultado disso.






Eu amo o lecionário. Três passagens da Bíblia lidas em um culto! Nas minhas raízes avivalistas, você podia brandir a Bíblia no ar, bater com ela no púlpito, arrancar páginas dela para ilustrar um sermão e citar versículos isolados, mas não podia ler muito dela exceto na Escola Dominical. Três leituras no culto provavelmente seriam em um programa especial de Natal, ou talvez uma Escola Bíblica de Férias fora de controle.






É claro que isso é irônico. Nas igrejas litúrgicas, a Bíblia é lida o tempo todo e aparece em todas as partes do culto. Já se disse por aí que mesmo que o sermão seja repetidamente ruim, ainda se salva no culto dessas igrejas o Evangelho e uma boa dose de doutrina sólida, só com a liturgia e as orações.






Além disso, pregar no lecionário é uma maravilhosa alternativa ao método “o que quer que o irmão Zezinho sinta no coração esta semana”. Os lecionários unem os cristãos, visto que muitas e diferentes igrejas lêem as mesmas lições e ouvem sermões sobre as mesmas passagens do Evangelho ou das Epístolas. Comentários ao lecionário permitem que pregadores compartilhem suas idéias sobre como abordar o texto. E, é claro, o lecionário mantém a Bíblia no centro do sermão. Você não pode simplesmente correr atrás do tema do dia quando o lecionário está cumprindo o seu papel.






Eu estava em uma igreja anglicana na semana anterior ao referendo sobre a ordenação do Bispo Robinson. O texto da semana, é claro, não tinha nada a ver com o assunto do dia. O pároco, que sentiu que a congregação precisava ouvir sobre o assunto polêmico, fez o texto trabalhar para isso, mas ainda teve de voltar e falar sobre o Evangelho por mais da metade do sermão. Eu achei que isso foi um ótimo exemplo de como o lecionário resiste aos nossos próprios interesses, e nos mantém em cima das Escrituras, pregando Cristo.






Eu amo os credos, confissões e responsos do culto litúrgico. Nada parece incomodar mais o cristão não-litúrgico do que os pecados gêmeos de: 1. Falar coisas juntos; e 2. Dizer algo toda semana. Por que isso irrita tanto? Aparentemente, essas pessoas acham que não fazem isso.






Hein? O quê? Já ouviu falar de cantar? A maioria das igrejas protestantes passa boa parte do tempo do culto dizendo/cantando as mesmas coisas juntos com tanto entusiasmo quanto conseguem ter, mas se você tirar os instrumentos e a melodia, então estamos marchando para os penhascos do romanismo. Não é besta, isso?






E mais; a última vez que eu conferi na minha igreja natal, as orações espontâneas e ministrações da semana foram marcadamente parecidos com os da semana anterior. Pense nos bumerangues semanais tais como a oração de consagração das ofertas feita pelo Diácono João: “Senhor, abençoa estas ofertas, abençoa aqueles que as entregaram. Abençoa os doentes e sê com o nosso pastor. Se houver alguém aqui que não é salvo, permita que eles venham a Cristo antes que seja tarde demais para a eternidade. Em nome de Jesus, amém.” Parece familiar para alguém? Isso faz da Oração de Coleta da semana um oásis de inovação.






Uma das minhas horas favoritas no culto é a confissão congregacional. Ficar juntos de pé, dizendo em uníssono as palavras que concordam que nós somos todos falhos e precisamos da graça, eu me sinto em casa. O mesmo acontece com os Credos Niceno e Apostólico, a Oração do Senhor, as perguntas dos catecismos e nossa leitura responsiva do Salmos da semana. Juntos, como um só corpo, sem ninguém tentando aparecer, nós confessamos os nossos pecados, anunciamos a nossa fé e falamos com Deus nas palavras que ele mesmo nos deu.






Eu amo o fato de que o culto litúrgico não é cada pessoa fazendo o que ele ou ela quer fazer. Longe de mim criticar o comportamento individual de qualquer grupo de participantes do culto, mas eu gostaria de sugerir que tem alguma coisa muito errada com um culto onde as pessoas recebem permissão para tentar se superar umas às outras na participação e no entusiasmo. Bem, muitos dos meus amigos chamam isso de ser “livre” no culto, mas esse tipo de liberdade parece ter certas conseqüências previsíveis.






Exibicionistas e pessoas que querem atenção realmente entram na dança. Pessoas que querem fazer da vida um palco ou uma tela se sentem convidados a impressionar ... o resto de nós? (Quando é que os intermináveis números de jovens dizendo que foram chamados para o “ministério de louvor” vão acabar?) Distrações são a norma, e o pobre cara que só fica lá sentado é bombardeado com culpa e constantes admoestações para “se libertar” e “gritar/bater palmas/pular/bater os pés/uivar/dançar para o Senhor”.






O culto litúrgico diz que, se não podemos fazer juntos, provavelmente não vamos fazer. Simples assim. É claro, algumas pessoas se ajoelham e outras não. Alguns cantam mais alto que os outros. Sempre haverá meios para a natureza humana escapar, mas a idéia é cultuar como uma congregação, e a liberdade para adorar a Deus vem junto com a liberdade que ganhamos ao pôr rédeas no ego e na exigência de sermos reconhecíveis pela cultura.






Serei direto: algumas igrejas transformaram o culto em um caos vergonhoso, que não tem nenhuma semelhança com o mandamento de “ordem e decência” do Apóstolo. Nós somos seres humanos caídos. Quando se remove qualquer restrição e se nos manda sermos “livres em Deus”, não se assuste se você começar a ter por aí gente correndo, fingindo de bêbados ou sabe Deus o que mais. Sim, essa é a projeção mais pessimista, mas está se tornando verdade demais para ignorar.






Graças a Deus pela sanidade das igrejas litúrgicas.






Na verdade, eu talvez seja ainda mais grato porque a liturgia não sente a necessidade de impressionar o mundo ao ser igual a ele. É a coisa mais não-contemporânea, não voltada-ao-público de que eu tenho notícia na igreja. É o próprio jeito da igreja de ouvir e falar, e até agora o mundo tem tido bem pouco sucesso em transformar a liturgia em um produto comercial para o espírito desta era. Isto não quer dizer que alguns liberais e inovadores não tenham caído na tentação e violentado a tradição do Livro de Oração Comum em nome de alguma coisa moderna. Mas vá a qualquer igreja litúrgica – em qualquer lugar – e maravilhe-se em como muito do cristianismo sobreviveu até mesmo ao massacre promovido pelos blasfemadores.






Eu amo o fato de que muito do que é dito afora o sermão, é preparado de antemão. Em outras palavras, eu amo o fato de não ter de ouvir o irmão Zé ficar falando sobre o que Deus colocou no coração dele ESTA SEMANA!!






Uma vez eu tive uma longa conversa com um atencioso jovem que não conseguia – absolutamente, não conseguia – entender minha preferência por um culto litúrgico. Eu lhe perguntei se ele nunca se cansou de ouvir pregadores falando. Só falando, sem parar, pra dar a hora. Especialmente, se ele não enjoava das piadinhas e comentários fofinhos e dos apartes desnecessários. Se ele às vezes não desejava poder simplesmente ir à igreja e ouvir a Bíblia, boas palavras de encorajamento, orações curtas e objetivas e um mínimo de papo alegrinho? Ele admitiu que eu estava certo, mas que não importa o quanto o pregador imitasse o Jay Leno, ele não seria convencido a ir a um lugar onde o culto é lido.






Eu entendo que ele se sinta assim, mas uma vez que você esteja dentro de uma boa igreja litúrgica que trabalha para que cada culto tenha seu significado, a impressão de estar seguindo um roteiro dá lugar a um verdadeiro apreço por CADA PALAVRA que é dita no culto. O valor dado a cada frase e a cada oração curta ou responso é um dos mais ricos tesouros da liturgia. As palavras não deveriam ser atiradas em nós como se não importassem, e não deveriam ser usadas para manipular do mesmo jeito que o mundo as usa para vender e corromper.






O evangelicalismo se tornou um culto das celebridades. Os pastores que lideram o movimento são superstars, até mesmo figuras de adoração e quase-culto. A maior parte dos cultos evangélicos encoraja essa imitação do mundo do entretenimento. Músicos, pregadores, líderes de louvor, todos seguem as deixas de estilo, roupa e até jeito de falar, da idolatria do entretenimento da nossa cultura. O culto litúrgico não encoraja isso, e na verdade trabalha contra isso ao restringir o papel do ministro na liturgia. O ministro é o servo da Palavra. Ele é ordenado para o ministério da Palavra e dos Sacramentos, e sua personalidade deve se tornar sua serva, de modo que a Palavra seja ouvida e vista.






O que quer que saia da boca de um pregador, são as palavras de um homem. Um homem caído como eu. Eu sei que a liturgia também são as palavras de homens caídos, mas há algo na liturgia comunitária de um culto high-church que mostra o que pode acontecer quando a personalidade é submetida a palavras selecionadas precisamente para dar glória a Deus e não ao homem. A liturgia foi “purificada”, como poucas criações humanas o foram, para trazer as palavras dos homens à sujeição da Santa Palavra de Deus. Eu gosto do resultado, e creio que ele me tem feito bem.






Eu amo um monte de outras coisas. Eu amo o emprego da arte e da arquitetura para glorificar a Deus. Eu amo os hinos. Eu amo o senso de História. Eu amo a humildade no coração da liturgia. Eu amo o constante retorno à linguagem da Bíblia. Eu amo as vozes do povo através das eras se tornando as vozes dos participantes da minha igrejinha. Eu amo a centralidade dos Sacramentos, especialmente daquela esquecida celebração em torno da Mesa do Senhor. Eu amo a mensagem teologicamente dirigida do culto litúrgico, onde Deus importa mais do que a audiência.






O que há para não se amar?






O culto litúrgico pode ser uma coisa muito ruim, os críticos dizem. Ele pode ser vazio, congelado, repetitivo, insincero e elitista. Ele certamente pode subir à cabeça de alguns tipos de pessoas. Como qualquer expressão de culto humano, o uso do ritual pode dar margem a que nossa condição caída transforme as palavra que se diz sobre Deus em mero ruído de fundo para as divagações da mente humana. Ele exige muito mais do que os outros tipos de culto, e você precisa praticar bastante para se tornar bom nele. Ele não é amistoso para os preguiçosos ou os que se entediam facilmente.






Ainda assim, me parece que a resposta para a “mortidão” no culto não é a simples inovação. Não é rejeitar a liturgia, que nos traz para a tradição cristã nas palavras da própria Bíblia. Os julgamentos da liturgia feitos pelos consumidores do culto moderno não são confiáveis. Ela vai sobreviver e, se nós a valorizarmos, ela irá florescer agora e no futuro. Ela irá durar mais do que as pesquisas e enquetes de mercado, porque ela já durou mais do que todas as modas e tendências que teve de enfrentar, e ainda hoje continua a servir a Igreja.






Reviver a liturgia, trazer novas expressões de culto às formas antigas, nova música, novas abordagens para o culto congregacional, todas estas são tarefas importantes para aqueles de nós que valorizam a liturgia, e crêem que ela deve se fortalecer e sobreviver a estes tempos para uma vez mais testemunhar de Cristo, quando as inovações da era das mega-igrejas emergentes se tornarem as modas abandonadas do passado.






Webber crê que as gerações que vêm após os boomers serão mais abertas à liturgia do que seus pais, porque eles estarão esgotados com as cínicas tentativas de fisgá-los com luzes e gelo seco. A linguagem da liturgia tem um potencial muito rico para alcançar aqueles que estão cansados de televisão e Powerpoint e procuram por simbolismo e substância para se unir a algo rico e verdadeiro. Mesmo igrejas pentecostais/carismáticas têm mostrado uma abertura para rever seu próprio culto e reabrir o diálogo com suas litúrgicas e clássicas raízes cristãs. Há uma exaustão no pessoal do culto moderno, e a liturgia é o oásis que muitos irão encontrar para sua sequidão e cansaço.






Eu me alegro por ter-me encontrado no culto litúrgico e em uma apreciação pela mais ampla tradição cristã. Espero que os anos que me restam me dêem oportunidades para compartilhar dessa verdadeira renovação do culto bíblico com muitos dos meus amigos evangélicos. Este é um tesouro que vale a pena encontrar e passar adiante, pois a cada nova geração que descobre o culto da igreja antiga, o próprio tesouro da tradição cristã se torna mais rico.






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* Michael Spencer foi pastor batista, fundador e editor do blog Internet Monk. Ele faleceu no dia 05 de abril de 2010, após anos de luta contra um câncer. Ele é o autor de Mere Churchianity, que será publicado postumamente em 15 de julho de 2010. A Sociedade pela Liturgia Reformada transmite seus pêsames aos amigos e familiares, e agradece a pronta disponibilidade dos demais editores do Internet Monk em autorizar esta tradução e publicação.

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